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Coluna: Tecendo Vida, Bordando Amor

Publicado em 18/02/2015 • Coluna

Por Andréa Caselli*

Quando recebi o convite para escrever sobre feitiços e receitas mágicas para o Recife Zen fiquei a pensar sobre como escapar do lugar comum e levar algo singular para os leitores. Antes de tudo, é preciso esclarecer que sou uma bruxa cheia de cacoetes acadêmicos e nunca termino o bla bla blá sem expor referências bibliográficas. As manias da profissão também me dão dificuldades para escrever textos curtos, mas eu juro que tento melhorar. Sendo assim, mãos à obra! O jargão “receita mágica” remete logo a uma cozinha encantada, cheia de ervas raras e um caldeirão borbulhante. Esqueça! Pois a nossa primeira lição será no quarto das costuras. Vamos aprender a trilhar o caminho da beleza recordando as velhas bruxas das rocas de fiar, as vovós com suas agulhas de crochê e os bordados brilhantes. Afinal, o que seria de Joana D’Arc e Morgana La Fey se elas não soubessem costurar e remendar suas próprias roupas com eficiência? Ou melhor, o que seria dos homens do sertão nordestino se eles mesmos não costurassem seus gibões para a batalha na caatinga? Claro, a intenção de que a costura permaneça firme e bela constrói a harmonia do traje… E o nome disso é magia.

A beleza vai muito além de um padrão estético… Independente de culturas, ela abrange o universo e a natureza de cada ser. Nem todos os olhos conseguem enxergá-la porque ela não está disponível à primeira vista. A verdadeira beleza está na realidade profunda das coisas e é a própria divindade manifesta. A estética está indissoluvelmente ligada à ética e à moralidade. Mas a beleza não precisa de fronteiras, pois o verdadeiro diálogo se dá entre as identidades que se reconhecem como tal em suas diferenças. E assim, em minhas andanças pela magia do amor em busca do coração profundo, recordo uma máxima da oralidade xamânica sobre a crença dos navajos de que a beleza os circunda e eles sintetizam isso em uma oração. Não é um comentário sobre a paisagem ou sobre o que está nela, mas sobre a harmonia e o equilíbrio de todas as coisas, entre elas o indivíduo dando voz à oração. É um pedido para manter o equilíbrio, tanto interiormente quanto no mundo afora. A espiritualidade dos navajos é dedicada a manter esse equilíbrio de modo que todos sigam a beleza.

 

Com a beleza antes de mim, que eu ande.

Com a beleza atrás de mim, que eu ande.

Com a beleza acima de mim, que eu ande.

Com a beleza abaixo de mim, que eu ande.

Com a beleza ao redor de mim, que eu ande.

Oração Navaja.

Essa oração pode ser muito eficaz no momento em que você está costurando algo e quer impregnar essa costura com a força da beleza. A magia das linhas e das agulhas sempre esteve presente na vida humana, a exemplo do xale e do patchwork. Em termos simbólicos o xale ainda é pouco estudado, nem sequer está contido nos melhores dicionários de símbolos. Porém é um artefato mágico dos mais eficientes. Assim como outras imagens primordiais, ele está presente em todas as culturas, pois se trata de uma vestimenta básica no universo feminino. Durante muitos anos estudei o xale nas culturas cigana e europeia, mas ultimamente venho pesquisando seus atributos por outros cantos do mundo… O xale lembra as vovós, seus bordados e o aconchego materno. Usá-lo significa retornar ao lar. Então, apesar de representar todas as direções cardeais e elementais em sua forma de quadrante, o xale nos leva mesmo ao elemento terra… é a busca pela Mãe Terra e suas profundezas, é a riqueza do abrigo, do amparo e da proteção.

Assim, o trabalho mágico com o xale remete à terra e a ancestralidade por meio da beleza de seu bordado. A tomada do xale é um ensinamento dos nativos norte-americanos que escolheram voltar para casa e abraçar os ensinamentos dos seus anciões. Portanto, quem usa o xale está percorrendo um caminho de retorno ao lar que é tecido a muitos fios e que promove um encontro com as mais diversas linhas. O uso do xale pode entrar e sair de moda, mas sempre retorna para nos aquecer, proteger. As mulheres incas usam seus xales presos por um broche, tupus, um artefato que possibilitou aos arqueólogos identificar estátuas ou múmias como sendo do sexo feminino. A mesma ideia do xale como os braços amorosos da grande mãe é expressa entre os celtas na figura de Brigith como a Senhora do Manto. O manto da Deusa não apenas cobre e protege todo o território, mas também envolve cada pessoa que recorre a ela por proteção. Os fios de que é tecido seu manto são os filamentos que conectam todas as coisas em uma grande teia de vida. Da próxima vez que usar um xale, sinta a Grande Mãe envolver você em seu abraço amoroso e protetor.

Já o patchwork emana o poderoso ritual de construir a partir da destruição, pois nada mais é que a construção harmoniosa de estampas singulares a partir de velhos retalhos. A morte pela Aids levou à invenção de um novo ritual em fins do século XX. No início, um homem solitário com suas lembranças – sem lugar onde recolher-se, uma vez dispersas as cinzas do seu amigo – representou o amigo falecido bordando seu nome em um pedaço de tecido. A ideia atravessou os mares e atualmente há o “patchwork dos nomes” como um sudário purificador.

Dicas

A magia é misteriosa e oculta na transparência da organza, nas curvas do veludo, na luminosidade do cetim, na teia das rendas e na liberdade dos algodões. Abaixo deixo dicas sobre alguns tecidos e seus poderes:

Veludo: Excelente para ocasiões relacionadas à sedução e à quebra de padrões. Também é ideal para reatamento de amizades e amores.

Cambraia: Bom para confecção de lençóis destinados à fidelidade conjugal e aos sonhos proféticos.

Organza: Ideal para ocasiões associadas à fertilidade (tanto física como espiritual), transparência emocional, prosperidade e alegria.

Brim: Muito representativo da liberdade, da coragem, do poder masculino, da iniciativa, da resistência e da saúde.

Cetim: Ideal para estimular o erotismo, a sedução, a paixão e o incremento das artes.

Voile: Excelente para trabalhos com espiritualidade, oráculos, transparência emocional e criatividade.

Linho: Relacionado ao sucesso profissional, à obtenção de trabalho ou de novo cargo, à justiça e à resistência.

Além desses tecidos, existem outros com uma grande variedade de poderes mágicos. Há também infinitas possibilidades de utilização como bordados, dobraduras e confecção de trajes. Mas é importante sempre lembrar que a magia só acontece se acreditarmos nela genuinamente. Liberte a criatividade e sinta o prazer de trilhar o caminho da beleza!

 

andreacaselliANDRÉA CASELLI é historiadora e mestranda em Ciências da Religião pela Universidade Católica de Pernambuco. Professora de Dança do Ventre e líder do círculo de mulheres Filhas de Gaia – PE, tem vários artigos publicados em periódicos e livros sobre História, Paganismo e Imaginário.

 

 

 

Referências:

FAUR, Mirella. O anuário da Grande Mãe. São Paulo: Gaia, 2001.

FRAZÃO, Márcia. O armário da bruxa. São Paulo: Planeta, 2007.

SEGALEN, Martine. Ritos e rituais contemporâneos. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2002.

WILLIAMS, Mike. O espírito do xamã. São Paulo: Alaúde, 2013.



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