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Começando uma Alimentação Mais Saudável

Publicado em 30/05/2016 • Coluna

Por Paula Chacon*

Transgênicos. Agrotóxicos. Obesidade. Câncer. Diabetes. Dieta.

Tudo começou quando estava pesquisando o diferencial de um alimento específico que eu iria trabalhar representando comercialmente. Eu precisava saber exatamente quais características competitivas o meu produto teria em relação aos concorrentes: menor teor de sódio, embalagem livre de BPA, sem glúten, sem glutamato monossódico, sem transgênicos. Era óbvio que estas informações disparavam o meu produto à frente do mercado. Mas o que era BPA? O que era glutamato? Será que isso realmente faria alguma diferença significativa para meu cliente? E alimentos transgênicos, que mal fariam?

BOOM!

Foi assim que me senti após ler detalhadamente o primeiro fórum realmente informativo sobre alimentação e que tratava sobre gorduras: de início parecia que estava entrando numa Sociedade Secreta; o site de letras com cores feias, pessoas que defendiam diversas teorias de conspirações e, inclusive, um nome de fórum extremamente sugestivo, que eu podia intitular aqui como se chamasse, por exemplo, “A Verdade Oculta”. Um fórum bastante old school que me transportou para a web do começo dos anos 90, onde tudo de mais colorido era feito por comandos de script em aplicativos de chat como o mIRC e o mais complexo do design era o próprio MS-DOS e o Windows instalado depois de mais ou menos 32h e 78 disquetes.

Era como entrar numa biblioteca empoeirada, onde os autores eram na maioria os cientistas que descobriram os próprios elementos químicos e montaram a Tabela Periódica. Não tinha nada superficial e nada não fazia sentido. Todas as informações se encaixavam e ali descobri o primeiro planeta do sistema Solar: Gorduras Saturadas e Colesteróis não são vilões.

Uma jogada rápida no Google e as contradições começaram a aparecer: “você quis dizer que… Gorduras Saturadas e colesteróis são vilões” – fonte: Webpédia. Desde quando começamos mesmo a confiar nas primeiras páginas de pesquisa como verdades máximas? Algo estava errado, mas que bom que química é uma ciência de mãos dadas com a matemática, porque assim as contas não podem ser inexatas: uma gordura de cadeia de átomos de carbono já saturada não pode aceitar nenhum outro elemento para reagir, não alterando sua composição e não se oxidando. Portanto, concluí que gorduras saturadas são as melhores para consumo, sim. Priu.

Não importam os mitos contados naquele programa bacaninha de TV. Não importa nenhuma outra informação. A minha própria decisão de compreender uma formulação química através dos meus próprios estudos me empoderou de uma maneira que nunca havia experimentado antes. Foi como se ao terminar de ler todos os artigos possíveis eu tivesse aberto a porta secreta do clubinho underground que me enfiei junto a personagens de um submundo e tivesse saído de volta às alamedas do mundo real, como se ninguém mais que transitasse naquele beco de fora soubesse o que acontecia ali, atrás daquela porta sem graça. Senti que dei orgulho ao meu falecido professor de Química do Ensino Médio e ele pôde fazer a careta preferida dele reclamando de mim com seu sorrisinho sarcástico diretamente do caixão, como quem diz “prestou em algum momento”.

Não só fiquei saudosa, mas também curiosa. Ted Talks, documentários, fóruns e mais fóruns, blogs, doutores de medicinas alternativas, artigos científicos – em português e em inglês -, reportagens, rótulos. A minha paranoia havia se estabelecido e eu não podia mais me parar. Como assim nós temos papilas gustativas para todos os sabores e evitamos o amargo? Algo estava errado.

Como assim canola não é uma planta? Algo estava errado. Como assim o Brasil é o país número um em consumo de agrotóxicos no mundo? Como assim o solo morre após uso de sementes transgênicas que só aceitam um tipo específico de “agroquímico” que o agricultor é obrigado a comprar do mesmo fornecedor das sementes e acabam se endividando e perdendo terras para o fabricante e morrendo de fome ou cometendo suicídio? Como assim pessoas estão sofrendo mutações congênitas no campo pelo uso compulsivo de agrotóxicos proibidos no mundo inteiro menos no Brasil? Como assim que o solo, ar e água quilômetros ao redor de uma plantação feita com uso de agrotóxicos morrem? Como assim nos dizem que o flúor na nossa água é bom para saúde? Algo estava muito, mas muito errado.

De repente todos os cool kids da Sociedade Secreta podiam estar corretos. De repente existe mesmo uma conspiração mundial.

De repente, estava eu em um dos maiores supermercados do país, e não foi bom. Olhar ao redor e não ver opções de industrializados limpos, nem mesmo de frutas, legumes e verduras limpos, me fez impotente de novo. Todo o meu ser foi tomado por uma tristeza abissal. Realizei que a maioria de nós não tem opções. Nós que vivemos em centros urbanos, crescemos neste meio e nunca nos foi ensinado a prestar atenção em detalhes que não fossem aquele custo benefício entre o rótulo mais legal e o preço aparentemente mais barato. E eu que não sabia nem o que era uma acelga, passei a entender quem é que comanda o mundo inteiro mesmo.

Louca. Sem vibe. Anti-social. Complicada. Possível anoréxica.

Foram os rótulos que recebi ao decidir ir em frente na minha opção de mudar completamente meu modo de consumo alimentar em busca da quase migração para o campo, pois havia entendido que era assim que teria de ser caso eu quisesse confiar em toda a cadeia produtiva que finalizava no meu prato de comida. Não tive opção, precisei radicalizar me esforçando numa dieta “só” de alimentos orgânicos e ninguém está acostumado a isso. O apoio apenas chegou depois que a insistência se tornou um prato colorido e gostoso, disfarçado algumas vezes até de admiração.

Não sou a pessoa mais disciplinada do mundo, e talvez até covarde. O meu susto e medo em ser a próxima portadora de alguma doença da moda nesta sociedade me fizeram ignorar os rótulos que recebi e também os das prateleiras e cardápios. Minha indignação se fez determinação e meu paladar se acostumou. Mudou, melhorou. Pude sentir em meu corpo mais enérgico, em ímpetos alimentares controlados, em fome exacerbada regulada, em dores menstruais amenizadas, em exames de sangue normais – e em uma fatura de cartão de crédito mais enxuta, acredite…

Não faço acompanhamento nutricional, por enquanto, e também não posso recomendar como você deva seguir a sua dieta. Mas, se tem algum conselho que eu possa deixar para você que gostaria de começar a se alimentar melhor – além de pesquisar muito sobre cada um dos ingredientes que compõem sua comida e de não confiar em associações que financiam pesquisas de nenhuma marca de alimentos – é: tente.

Tente ir contra aquelas reuniões de amigos nos bares e restaurante algumas vezes. Tente ir contra aquele bolo de chocolate da festinha infantil mais esperada na família. Tente não usar temperos prontos. Tente criar a sua própria versão sem aditivos do seu prato/molho/doce preferido. Se o “masterchef” não der certo da primeira vez, você ainda poderá consumir o que sobrou dessa tentativa com a consciência de que mesmo com o gosto não tão bom quanto você esperava, nenhum composto ali preparado irá ajudar a lhe matar.

Parece clichê, mas, no final, mesmo que você tenha tido um trabalhão para encontrar item por item a substituir na sua receita e para preparar  sua criação e limpar toda a cozinha, você terá aprendido alguma coisa extra. E um detalhe eu garanto: se você não sabe cozinhar, assim como eu ainda estou me instruindo, você terá aprendido um sabor novo de um ingrediente específico usado nessa sua receita. E isso fará toda a diferença na próxima vez que você estiver fora de casa e for provar algo para comer. Eu mesmo já me sinto como se tivesse passado de candidata à própria jurada do Masterchef – mesmo ainda cometendo alguns acidentes culinários.

Pelo menos eu agora sei de onde a minha comida deve ter vindo.

Paula Chacon é administradora de empresas e mudou sua alimentação recentemente. Em breve, mais textos da autora.



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